Pesquisa inédita no Brasil vai rastrear baleias-jubarte por satélite e mapear risco de atropelamentos por navios no litoral do ES
Pesquisa inédita vai rastrear baleias por satélite e mapear risco de atropelamento Na próxima temporada de reprodução das baleias-jubarte, dez delas terão...
Pesquisa inédita vai rastrear baleias por satélite e mapear risco de atropelamento Na próxima temporada de reprodução das baleias-jubarte, dez delas terão um pequeno transmissor preso ao corpo para revelar, por satélite, os caminhos que percorrem no litoral do Espírito Santo. A novidade faz parte de uma pesquisa pioneira no estado para descobrir onde os trajetos das baleias se cruzam com as rotas de grandes navios e, assim, ajudar a evitar que esses animais sejam atropelados e mortos no mar. Todos os anos, as jubartes chegam ao litoral brasileiro para se reproduzir e ter seus filhotes. No mesmo mar, grandes embarcações entram e saem dos portos do estado, criando uma área de convivência entre a vida marinha e uma intensa atividade econômica. Por isso o risco de choques também é grande. 📲 Clique aqui para seguir o canal do g1 ES no WhatsApp Na temporada de 2027, os pesquisadores vão acompanhar dez baleias por satélite para entender como elas utilizam essa região. Os dados serão cruzados com informações sobre o tráfego marítimo para identificar possíveis áreas de risco de colisão. Segundo os pesquisadores, este será o primeiro estudo com tagueamento no Brasil com o objetivo específico de entender como as jubartes utilizam a região durante a temporada reprodutiva e cruzar esses deslocamentos com o tráfego marítimo. A expectativa é que os dados ajudem a identificar áreas de maior risco de colisão entre baleias e embarcações e possam orientar medidas para reduzir a possibilidade de acidentes. A área monitorada inclui a faixa do litoral entre Serra, Vitória, Vila Velha e Guarapari, avançando pela plataforma continental, chegando a cerca de 23 milhas náuticas da costa. Pesquisa inédita vai rastrear baleias-jubarte por satélite e mapear risco de atropelamento por navios no Espírito Santo Divulgação/Amigos da Jubarte Baleias e navios dividem o mesmo espaço A pesquisa vai cruzar os deslocamentos dos animais com o tráfego de embarcações para identificar onde esses caminhos podem se encontrar. A dimensão da atividade portuária ajuda a mostrar o tamanho do desafio. Segundo o Atlas Portuário do Espírito Santo 2026, elaborado pelo Observatório Findes, os quatro terminais do Complexo Portuário de Tubarão registraram, juntos, 982 atracações em 2025. Todas na área de abrangência da pesquisa. 🚢 Movimento nos portos do ES ⚓ Porto de Tubarão: 528 🏗️ Terminal de Produtos Siderúrgicos: 259 🚢 Terminal de Praia Mole: 147 🌊 Terminal de Barcaças Oceânicas: 48 📏 Tamanho dos navios Tubarão: embarcações de até 365 metros Praia Mole: navios de até 300 metros Na região de Vitória e Vila Velha, o movimento também é intenso: ⚓ Cais de Capuaba: 313 atracações ⚓ Cais Comercial: 236 ⚓ Terminal de Vila Velha: 182 ⚓ Cais de Aribiri: 165 É nesse espaço de intensa atividade marítima que os pesquisadores querem entender com mais precisão por onde as baleias circulam e quais áreas são mais utilizadas pelos animais. "O tagueamento vem justamente para complementar essas informações e dar uma radiografia muito mais detalhada de como essas baleias estão utilizando essa área", explicou o ambientalista Thiago Ferrari, diretor do Instituto O Canal, do projeto Amigos da Jubarte e um dos responsáveis pelo projeto. Nos arquivos dos pesquisadores há vários registros de animais feridos que podem ter sido vítimas de colisões com embarcações. São imagens de baleias com marcas, cortes, cicatrizes e até partes da nadadeira peitoral decepadas. LEIA TAMBÉM: GIGANTES DO MAR: vídeo exclusivo mostra maior espécie de tartaruga do mundo desovando em praia do ES PESQUISA: Monitoramento aéreo e sonoro no ES busca salvar mamífero marinho mais ameaçado do Atlântico Sul CONHEÇA O CICLO: Por onde nadam as baleias-jubarte quando não estão no Brasil? Segundo Thiago Ferrari, casos assim são registrados praticamente em todas as temporadas desde o início das expedições, em 2014. Entre esses registros está o de uma fêmea que aparece em um vídeo nadando ao lado do filhote em Guarapari, em 2024. As imagens mostram o animal de perto e permitem observar as marcas deixadas no corpo. Para Ferrari, é um dos registros mais claros já feitos de uma baleia com ferimentos compatíveis com uma colisão com embarcação. "Uma avaliação veterinária apontou que as lesões já estavam em estágio avançado de cicatrização, indicando que o acidente havia acontecido havia pelo menos seis a oito meses. Não é possível, porém, determinar onde a colisão aconteceu. A baleia pode ter sido atingida durante a migração, em alguma área portuária do litoral brasileiro, ou em alto-mar no trajeto entre o Brasil e as áreas de alimentação próximas à Antártida", explicou. Apesar das marcas, a fêmea sobreviveu ao acidente e depois teve um filhote, que aparece ao lado dela nas imagens. Para Ferrari, o registro também é uma história de resistência. Imagem feita no Espírito Santo mostra baleia jubarte ferida por embarcações Divulgação/Amigos da Jubarte O satélite amplia o monitoramento O Espírito Santo já possui informações sobre as baleias obtidas por meio de drones, monitoramento acústico, fotoidentificação e observação em embarcações. Esses métodos permitem identificar animais, acompanhar filhotes, observar grupos e avaliar características das jubartes. Esse monitoramento acrescenta a possibilidade de acompanhar o deslocamento de um animal por um período maior e em uma área mais ampla. "Com o satélite, a gente consegue ter uma radiografia muito mais detalhada de como essas baleias estão utilizando essa área, inclusive durante a noite, quando a gente não consegue fazer o monitoramento com drone", disse Thiago. Os dados de localização serão cruzados com informações sobre o tráfego marítimo. A intenção é identificar possíveis pontos de conflito entre os caminhos percorridos pelas baleias e as rotas utilizadas pelas embarcações. A partir dessas informações, os pesquisadores poderão indicar áreas que mereçam maior atenção e discutir medidas para reduzir o risco de colisões. O biólogo marinho e doutor em Oceanografia Jonathas da Silva Barreto explicou que o diferencial está justamente na possibilidade de acompanhar o mesmo animal por semanas ou meses. "Com o transmissor satelital, esse limite não existe. A gente pode ter vários dias, até semanas ou meses de informação desse mesmo indivíduo e em uma área muito maior", explicou. Pesquisa inédita vai rastrear baleias-jubarte por satélite e mapear risco de atropelamento por navios no Espírito Santo Divulgação/Amigos da Jubarte BBB - 'Big Brother' das baleias Além da localização, o acompanhamento poderá trazer informações sobre a profundidade dos mergulhos e a distância dos animais em relação à costa e às embarcações. Jonathas comparou a nova tecnologia a uma espécie de "Big Brother da baleia". "Vamos brincar assim, como se fosse o Big Brother da baleia. A gente vai saber exatamente onde ela está a cada momento e, muitas vezes, até o que ela está fazendo, com a profundidade de mergulho, se está mais próxima ou longe da costa, se está mais perto ou distante de uma embarcação", explicou. Apesar da comparação, o equipamento não acompanha a baleia por meio de imagens. São dados de localização que permitem reconstruir os deslocamentos do animal, como em um GPS. Temporada reprodutiva é o foco Pesquisas com transmissores por satélite já foram realizadas no Brasil com baleias, inclusive jubartes e baleias-francas. Segundo Jonathas, porém, a maior parte desses trabalhos teve como foco os padrões de migração. No Espírito Santo, a pesquisa pretende acompanhar os animais enquanto eles permanecem na costa brasileira durante a temporada reprodutiva. "O diferencial desse trabalho é entender, pela primeira vez, qual é o padrão de deslocamento das baleias-jubarte enquanto estão na temporada reprodutiva aqui na costa brasileira", completou. A escolha do período é estratégica. É nessa época que as jubartes chegam ao litoral brasileiro para reprodução, nascimento e amamentação dos filhotes. Em 2025, pesquisadores estimaram até 97 nascimentos de jubartes na região durante uma única temporada. Os animais que chegam ao litoral brasileiro podem alcançar cerca de 16 metros de comprimento e pesar até 40 toneladas. Agora, os pesquisadores querem entender com mais detalhes como diferentes grupos utilizam a Grande Vitória, incluindo adultos, animais jovens e fêmeas acompanhadas de filhotes. Baleias nadam perto de embarcações no Espírito Santo Divulgação/Amigos da Jubarte Risco de colisão com embarcações Um dos principais objetivos do projeto é descobrir se existe sobreposição entre as áreas utilizadas pelas baleias e os locais de maior movimentação de navios. Segundo Jonathas Barreto, os dados poderão ajudar a indicar locais onde medidas de redução de risco podem ser adotadas. "Com esses resultados, a gente vai conseguir entender quais são as áreas de maior risco e propor medidas de mitigação, como, por exemplo, algumas áreas de fundeio podem ser modificadas e áreas de velocidade de embarcação podem ser modificadas", explicou. A pesquisa, no entanto, não parte da conclusão de que as baleias estejam evitando ou se aproximando dos navios. Os dados serão usados justamente para entender como os animais utilizam o ambiente e se existe sobreposição entre os trajetos. Experiência internacional chega ao Espírito Santo Um dos responsáveis pela aplicação dos transmissores será o biólogo marinho e doutor em Ciências Juan Pablo Torrez-Flores. O pesquisador tem experiência com marcação de cetáceos em outros países, participa do comitê científico da Comissão Internacional da Baleia e atualmente trabalha com pesquisa na Arábia Saudita. "Para nós, a parte interessante é que Vitória tem um grande porto. E o que queremos é efetivamente evitar esses conflitos", explicou Juan Pablo. O pesquisador também chama atenção para o impacto que uma colisão pode provocar para os dois lados. "Não pensem na baleia apenas do ponto de vista tecnológico ou ambiental. Pensem também do ponto de vista dos empresários. Uma baleia pesa 50 toneladas, então imagine uma embarcação. Por maior que seja um navio, ele também vai sofrer algum impacto", explicou. Os dados poderão, no futuro, ajudar a avaliar medidas como mudanças de rotas ou redução da velocidade das embarcações em áreas consideradas mais sensíveis. Marcação será feita a cerca de cinco metros Os equipamentos que serão utilizados na pesquisa estão em processo de compra. Eles são fabricados por uma empresa nos Estados Unidos. A aplicação está prevista para as temporadas de 2027 e 2028. A expectativa é que as baleias estejam a aproximadamente cinco metros de distância no momento da marcação. Aparelho que vai monitorar baleias no Espírito Santo pesam menos de 100 gramas e cabem na palma da mão Juan Pablo Flores Segundo Juan Pablo, o transmissor pesa menos de 100 gramas e será colocado na região dorsal do animal com o auxílio de uma balestra. Pequenas estruturas de fixação ficam presas à camada externa de gordura da baleia, enquanto a parte eletrônica permanece do lado de fora. "Eu não posso dizer que não sente, não posso dizer isso. O animal sente a intervenção. Mas é um equipamento desenhado para causar o mínimo impacto possível, e o animal se recupera", contou Juan Pablo. O transmissor poderá enviar dados de localização enquanto permanecer preso e funcionando. A expectativa é que o equipamento forneça informações durante aproximadamente um a dois meses. Depois desse período, o dispositivo pode se soltar naturalmente da baleia ou deixar de funcionar. Pesquisa reúne profissionais ligados à Ufes O projeto também está conectado a uma rede científica formada ao longo dos últimos anos no Espírito Santo. O Jubarte.LAB reúne majoritariamente pesquisadores ligados à Ufes, entre profissionais já formados pela universidade e estudantes e pesquisadores de mestrado e doutorado. Além do acompanhamento por satélite, os pesquisadores pretendem aproveitar a operação para coletar amostras biológicas, realizar estudos de DNA e utilizar câmeras. A estratégia permite que uma mesma operação de campo produza informações para diferentes linhas de pesquisa. Pesquisadores vão monitorar 10 baleias-jubarte por satélite na temporada de 2027 no ES Investimento público que financia a pesquisa O projeto de monitoramento por satélite é financiado pelo Fundo Estadual do Meio Ambiente, o Fundema, ligado à área ambiental do Governo do Espírito Santo. O projeto recebeu R$ 789.170 para estudar a seleção e o uso de áreas pelas baleias-jubarte no estado por meio de monitoramento satelital, com foco na prevenção de colisões com embarcações. O investimento permite produzir informações científicas que podem ser utilizadas tanto na conservação dos animais quanto no planejamento de medidas de segurança para a atividade marítima. A pesquisa também poderá gerar conhecimento aplicável a outras regiões brasileiras e a países que enfrentam problemas semelhantes com a presença de grandes cetáceos em áreas de intensa navegação. Da baleia monitorada ao turismo de conservação Enquanto o monitoramento por satélite busca descobrir como as baleias utilizam o oceano e onde existe maior risco de colisão, outro projeto usa tecnologia para transformar a presença desses animais em uma oportunidade de turismo sustentável. É o Quero Ver Baleias, iniciativa do Instituto O Canal que recebeu R$ 146,7 mil da Fundação de Apoio à Pesquisa do Espírito Santo (Fapes) para desenvolver uma nova etapa tecnológica da plataforma. O projeto começou a ser desenvolvido em 2016 para organizar o turismo de observação de cetáceos no Espírito Santo. Ao longo dos anos, passou a atuar na capacitação de operadores, orientação de embarcações e aproximação entre pesquisadores e empresas de turismo. Agora, com o apoio da Fapes, a plataforma está sendo transformada em um aplicativo, com previsão de lançamento no fim de 2026. A ferramenta pretende conectar turistas a experiências de observação de baleias e outros roteiros marinhos e costeiros. Atualmente, reúne mais de 30 parceiros no Espírito Santo, Rio de Janeiro e sul da Bahia. A proposta também é reunir informações sobre o perfil dos turistas e sobre a atividade, dados que podem ser utilizados por empresas e pelo poder público para compreender o mercado de turismo de observação. O projeto prevê ainda critérios para os operadores, participação de pesquisadores nas embarcações e ações de educação ambiental. A ideia é que a conservação das baleias esteja diretamente ligada à atividade econômica. Monitoramento busca entender deslocamento das jubartes no litoral do Espírito Santo Divulgação/Amigos da Jubarte Proteção, inovação e oportunidade Para Rodrigo Varejão, diretor-geral da Fapes, o investimento público em pesquisa precisa permitir que o conhecimento produzido chegue à sociedade e possa ser aplicado na prática. "A gente não vê mais a pesquisa isolada da sua potencial aplicação. A geração do conhecimento é uma coisa importantíssima, mas a gente tem que permitir que esse conceito transborde e possa chegar de alguma maneira para a população", disse. No turismo de observação de baleias, a biodiversidade pode gerar uma atividade econômica que depende justamente da conservação dos animais e do ambiente marinho. "Não tem como preservar sem ter investimentos. Então, a própria comunidade, para ela poder preservar, ela tem que desenvolver uma atividade econômica", explicou Rodrigo. É essa relação entre ciência, tecnologia, conservação e geração de renda que coloca o turismo de observação de baleias dentro da chamada economia azul. Enquanto os transmissores produzem informações para entender como as jubartes ocupam o oceano e onde seus caminhos podem se cruzar com os dos navios, o Quero Ver Baleias busca transformar esse patrimônio natural em uma atividade turística que dependa justamente da conservação. Ao mesmo tempo em que a ciência tenta descobrir como tornar mais segura a convivência entre baleias e navios, projetos de turismo sustentável buscam mostrar que a presença desses animais também pode gerar conhecimento, renda e novas oportunidades para as comunidades costeiras. Para os pesquisadores, o resultado esperado não é apenas acompanhar dez baleias, mas ampliar o conhecimento sobre uma população que volta todos os anos ao litoral capixaba e transformar esses dados em ferramentas de conservação. “As baleias não são daqui, não são de lá, mas todos temos que cuidar delas”, concluiu Juan Pablo. Vídeos: tudo sobre o Espírito Santo Veja o plantão de últimas notícias do g1 Espírito Santo